Um esconderijo. A mesma alma. A mesma escrita. Outro local onde a ficção e a realidade se hão-de sempre misturar!
16/01/2008
Men in trees
We're all a little in the dark when it comes to love.
Sometimes you have to run away from it to see it clearly.
And sometimes you have to come home to try it again.
The optimists know that there is an endless amount of love to go around.
The others of us can only hope we are not the ones left without a seat when the music stops.
Even when you get what you want, at best, love is a shot in the dark.
The chance to illuminate things about yourself you didn't know...
Like that you're not over someone yet.
Or that maybe you will be after a very long, very dark night
15/01/2008
A voz
Quando tenho muito tempo em frente ao computador começo a pensar em tudo menos no que tenho para fazer. Não há muita volta a dar-lhe, o blog fica com posts novos, o perfil do hi5 fica bonitinho, com coisas novas e o YouTube passar a ser muito visitado. Tudo isto enquanto tenho mesmo de trabalhar...
Foi numa dessas minhas horas em que não me apetecia fazer o que tinha realmente para fazer que o descobri.
Descobri uma voz que mexe comigo. Não consigo explicar porquê. Mexe mesmo comigo. É uma voz de uma pessoa que por acaso está próxima de mim, um bocado próxima de mim, num estilo de 6 graus (que devem ser menos no meu caso) mas que nunca tinha ouvido realmente.
Há muito tempo que reconheço a cara, só há pouco tempo meti um nome nessa cara e alguém lhe meteu uma vida que eu desconhecia por completo. Essa vida tem sido completada a pouco e pouco e tenho descoberto coisas que não fazia ideia. Não é nada, mas a voz fica-me a ecoar na minha mente. Gosto mesmo de ouvir. Muito.
E tudo começou com a voz... Que voz...
Foi numa dessas minhas horas em que não me apetecia fazer o que tinha realmente para fazer que o descobri.
Descobri uma voz que mexe comigo. Não consigo explicar porquê. Mexe mesmo comigo. É uma voz de uma pessoa que por acaso está próxima de mim, um bocado próxima de mim, num estilo de 6 graus (que devem ser menos no meu caso) mas que nunca tinha ouvido realmente.
Há muito tempo que reconheço a cara, só há pouco tempo meti um nome nessa cara e alguém lhe meteu uma vida que eu desconhecia por completo. Essa vida tem sido completada a pouco e pouco e tenho descoberto coisas que não fazia ideia. Não é nada, mas a voz fica-me a ecoar na minha mente. Gosto mesmo de ouvir. Muito.
E tudo começou com a voz... Que voz...
13/01/2008
Californication
Não, não é o album que tantas vezes já ouvi. É a série que o David Duchovny protagoniza. Não é nada parecido com os Ficheiros Secretos, nem de perto, nem de longe.
O dia-a-dia de alguém que está mesmo messed up, para nem dizer aquela expressão começada por fu****.
Gostei muito de ver os primeiros dois espisódios. Aconselho a pessoas de mente aberta e preparadas para ver qualquer coisa que fuja à normalidade dos relacionamentos, à normalidade da vida.

Já dei umas gargalhadas à custa da série. Gostei.
Não é aconselhável a menores, tem linguagem imprópria, muito sexo, muita nudez... Eu avisei!
Edit: parece que vai dar na televisão portuguesa. Num canal de cabo. Mais informação aqui. E não, não é pornográfica, falta pouco, mas não é.
10/01/2008
Vou escrever!
Vou escrever. Vou pôr no papel aquilo que o meu coração não sente e por onde os meus pensamentos vagueiam.
Vou escrever o que gostava de sentir, o que quero sentir.
Gostava de ter sentido.
Gostava de ter estado viva quando estive com ele. Afinal, era ele que estava ali, à minha frente, era ele que me tratava pelo nome, engraçado como nunca sei o que lhe chamar... era ele que me fazia rir... como há muito tempo ele fez.
Era ele com os seus olhos castanhos que me olhava e parecia que me queria dizer tudo o que lhe faltava dizer.
Era ele com a sua gargalhada que me convencia a rir.
Era ele com os seus toques subtis no meu braço que se tentava aproximar de mim.
Era ele que ali estava.
Era ele que ali estava por que eu o pedi.
Eu pedi um encontro. Eu precisava de um encontro que me mostrasse um caminho.
O caminho ele mostrou-mo. Não estava relacionado com ele. Nunca esteve. Se estivesse, não nos teríamos encontrado. Se fosse um caminho que dele dependesse não quereria ter tido esse encontro.
Ele estava ali. E eu... eu... eu estava adormecida pelas drogas que me prescreveram. Eu estava ali e pensava na minha ama. Eu estava ali e não o ouvia. Acenava com a cabeça, sorria, esperava pelas suas perguntas que tentava o mais fielmente responder, sentia-me um fardo ao estar ali, sentia que lhe estava a ocupar o tempo que precisava para outra qualquer demanda que não a vida pessoal.
Eu estava ali e só o usei para me mostrar aquilo que já suspeitava.
Estivemos juntos algum tempo. Deu para saber como tinha andado. Não perguntei nem ía perguntar. Não lhe ía fazer uma pergunta da qual eu não queria saber a resposta.
Estivemos juntos, falamos das nossas vidas sem falarmos de nós. Não lhe disse que passei um ano a pensar nele dia após dia. Não lhe disse que ainda procurava saber dele, sem ter alguém a quem perguntar e sem saber bem como saber o que queria saber, gostava de saber se estava bem.
Uma vez senti-o. E vi-o, sem saber onde ele estava. Não sei explicar. Não sei como. Sei-o.
No nosso encontro usei-o. Ele sabia-o.
Houve aqueles silêncios incómodos de 2 ou 3 segundos que não deixam marcas para dúvidas. Havia tanto por dizer, mas não me cabia a mim dizer que já estive magoada contigo, que me escondi neste esconderijo para não me encontrares e que agora talvez te mande estes escritos.
Agora ... agora ... agora já não faz mal.
Usei-o para me dar uma resposta. Deu-ma. Não a vou seguir. Ou talvez vá, ainda não sei. Custa-me pedir conselhos e não os seguir. Custa-me porque reconheço que a tua opção é melhor e mais segura que a minha hipótese. Sei que é, mas devo-o aos outros. Devo-lhes isso mesmo.
Mas não senti aquilo que tinha medo de sentir. Não senti borboletas, não senti remorso, não senti vontade de lhe tocar. Não sinto.
Estive contigo e não senti o que queria sentir. Já não sei o que é sentir, já não sei como posso voltar a sentir. Já nem me interessava saber se era por ti ou pelo vizinho da mesa do lado ou pelo senhor que cantava... Neste ponto só queria sentir algo, só me queria sentir viva. Já não sei o que é sentir... por agora não sei o que é sentir...
Não fiques triste. É assim a vida. Sei que um dia vou voltar a sentir. Sei-o como sei quem tu és. Entraste na minha vida e saíste com a mesma urgência. Ficaste por pouco tempo. Não estou a contar o tempo em que não estivemos realmente juntos, não vale a pena. Nunca me disseste que estavas chateado, que não me querias ver ou que era melhor não estarmos juntos. Se o disseste não me lembro.
Gostei do tempo que passámos juntos. Fui feliz. Agora não sou tanto, não por tu não estares na minha vida, mas apenas por não sentir. Não sinto o que quero, não sinto o que procuro. Talvez apareça um dia.
Talvez a pedra saia do teu caminho, espero sinceramente. Gostava que saísse para que fosses feliz, como um dia me fizeste feliz. Gostava realmente.
Por agora… não sinto. Não te sinto a ti há muito tempo. Não sinto.
Vou escrever o que gostava de sentir, o que quero sentir.
Gostava de ter sentido.
Gostava de ter estado viva quando estive com ele. Afinal, era ele que estava ali, à minha frente, era ele que me tratava pelo nome, engraçado como nunca sei o que lhe chamar... era ele que me fazia rir... como há muito tempo ele fez.
Era ele com os seus olhos castanhos que me olhava e parecia que me queria dizer tudo o que lhe faltava dizer.
Era ele com a sua gargalhada que me convencia a rir.
Era ele com os seus toques subtis no meu braço que se tentava aproximar de mim.
Era ele que ali estava.
Era ele que ali estava por que eu o pedi.
Eu pedi um encontro. Eu precisava de um encontro que me mostrasse um caminho.
O caminho ele mostrou-mo. Não estava relacionado com ele. Nunca esteve. Se estivesse, não nos teríamos encontrado. Se fosse um caminho que dele dependesse não quereria ter tido esse encontro.
Ele estava ali. E eu... eu... eu estava adormecida pelas drogas que me prescreveram. Eu estava ali e pensava na minha ama. Eu estava ali e não o ouvia. Acenava com a cabeça, sorria, esperava pelas suas perguntas que tentava o mais fielmente responder, sentia-me um fardo ao estar ali, sentia que lhe estava a ocupar o tempo que precisava para outra qualquer demanda que não a vida pessoal.
Eu estava ali e só o usei para me mostrar aquilo que já suspeitava.
Estivemos juntos algum tempo. Deu para saber como tinha andado. Não perguntei nem ía perguntar. Não lhe ía fazer uma pergunta da qual eu não queria saber a resposta.
Estivemos juntos, falamos das nossas vidas sem falarmos de nós. Não lhe disse que passei um ano a pensar nele dia após dia. Não lhe disse que ainda procurava saber dele, sem ter alguém a quem perguntar e sem saber bem como saber o que queria saber, gostava de saber se estava bem.
Uma vez senti-o. E vi-o, sem saber onde ele estava. Não sei explicar. Não sei como. Sei-o.
No nosso encontro usei-o. Ele sabia-o.
Houve aqueles silêncios incómodos de 2 ou 3 segundos que não deixam marcas para dúvidas. Havia tanto por dizer, mas não me cabia a mim dizer que já estive magoada contigo, que me escondi neste esconderijo para não me encontrares e que agora talvez te mande estes escritos.
Agora ... agora ... agora já não faz mal.
Usei-o para me dar uma resposta. Deu-ma. Não a vou seguir. Ou talvez vá, ainda não sei. Custa-me pedir conselhos e não os seguir. Custa-me porque reconheço que a tua opção é melhor e mais segura que a minha hipótese. Sei que é, mas devo-o aos outros. Devo-lhes isso mesmo.
Mas não senti aquilo que tinha medo de sentir. Não senti borboletas, não senti remorso, não senti vontade de lhe tocar. Não sinto.
Estive contigo e não senti o que queria sentir. Já não sei o que é sentir, já não sei como posso voltar a sentir. Já nem me interessava saber se era por ti ou pelo vizinho da mesa do lado ou pelo senhor que cantava... Neste ponto só queria sentir algo, só me queria sentir viva. Já não sei o que é sentir... por agora não sei o que é sentir...
Não fiques triste. É assim a vida. Sei que um dia vou voltar a sentir. Sei-o como sei quem tu és. Entraste na minha vida e saíste com a mesma urgência. Ficaste por pouco tempo. Não estou a contar o tempo em que não estivemos realmente juntos, não vale a pena. Nunca me disseste que estavas chateado, que não me querias ver ou que era melhor não estarmos juntos. Se o disseste não me lembro.
Gostei do tempo que passámos juntos. Fui feliz. Agora não sou tanto, não por tu não estares na minha vida, mas apenas por não sentir. Não sinto o que quero, não sinto o que procuro. Talvez apareça um dia.
Talvez a pedra saia do teu caminho, espero sinceramente. Gostava que saísse para que fosses feliz, como um dia me fizeste feliz. Gostava realmente.
Por agora… não sinto. Não te sinto a ti há muito tempo. Não sinto.
08/01/2008
28/12/2007
Something I came across today...
"I have something to tell you...
You do take my breath away...
You make my heart beat faster...
You make my palms sweat...
But that doesn't mean i don't love you...
It means I do.
Sometimes... you heart knows things your mind can't explain...
And my heart doesn't race for anyone else.
I love you..."
You do take my breath away...
You make my heart beat faster...
You make my palms sweat...
But that doesn't mean i don't love you...
It means I do.
Sometimes... you heart knows things your mind can't explain...
And my heart doesn't race for anyone else.
I love you..."
Clive Owen
Este senhor sempre mexeu comigo. Não consigo explicar. Não é muito bonito, não tem carinha laroca. Tem cara de homem que trabalhou, cara marcada e mesmo assim mexe comigo.
Foto tirada da net
É moreno de olhos verdes. Só isso basta para mexer comigo. Mas há ali mais... Há mistério, há ali um sorriso franco. Não o vi em papéis fáceis. Lembro-me do Closer que é um filme que mexe tanto comigo que não posso vê-lo amiude. E agora vou ver Elizabeth: The Golden Age onde ele entra e a pela queimada pelo sol, como qualquer pirata dos mares, lhe intensifica a cor dos olhos. Bom, vou até ali suspirar um bocadinho e já volto para o mundo virtual.
20/12/2007
Tu
Há dias em que não devia sequer em pensar acordar... Dias esses que custam a passar e que me mostram como não devia nunca estar. Não gosto de estar triste. Não gosto de me sentir assim, mas o certo é que me sinto assim. Há algum tempo, mas hoje as lágrimas quase que caiem ao ouvir sons conhecidos de músicas que me embalam neste deambular constante pela cidade.
Não percebo se nasci azarada, se nunca tive sorte, se sempre tive sorte, se aquilo que quero é aquilo que não devo ter... Não sei para que é que aqui ando. Não sei mesmo.
Não percebo por que não me sorris, não percebo por que não me olhas, não percebo por que não me falas.
Não percebo por que te sorrio, não percebo por que te olho, não percebo por que te falo.
Não me queres. Eu quero-te.
Por que não me vês? Estou aqui. Estou ali sempre que quiseres. Estou aqui por ti. Para ti.
Não existes. És um produto do meu ser. És uma vida que queria que fosse vivida. és uma imagem criada para mim, de mim. És e serás sempre tu. Não sei quem és, não te vejo, não te reconheço nas caras desconhecidas que vejo. Não sei quem poderás ser. Não te reconheço.
Mas sei que existes. Em algum lado. Sei que te falo por que te sinto. Sei que te sorrio por que te vejo. Sei que te sorrio por que me sinto bem quando o faço.
Estou triste. Quero-te. Não sei quem és. Não existes.
Não percebo se nasci azarada, se nunca tive sorte, se sempre tive sorte, se aquilo que quero é aquilo que não devo ter... Não sei para que é que aqui ando. Não sei mesmo.
Não percebo por que não me sorris, não percebo por que não me olhas, não percebo por que não me falas.
Não percebo por que te sorrio, não percebo por que te olho, não percebo por que te falo.
Não me queres. Eu quero-te.
Por que não me vês? Estou aqui. Estou ali sempre que quiseres. Estou aqui por ti. Para ti.
Não existes. És um produto do meu ser. És uma vida que queria que fosse vivida. és uma imagem criada para mim, de mim. És e serás sempre tu. Não sei quem és, não te vejo, não te reconheço nas caras desconhecidas que vejo. Não sei quem poderás ser. Não te reconheço.
Mas sei que existes. Em algum lado. Sei que te falo por que te sinto. Sei que te sorrio por que te vejo. Sei que te sorrio por que me sinto bem quando o faço.
Estou triste. Quero-te. Não sei quem és. Não existes.
14/12/2007
13/12/2007
Palavras sábias!
Esta coisa de gostar de alguém
Esta coisa de gostar de alguém não é para todos e, por vezes – em mais casos do que se possa imaginar – existem pessoas que pura e simplesmente não conseguem gostar de ninguém. Esperem lá, não é que não queiram – querem! – mas quando gostam – e podem gostar muito – há sempre qualquer coisa que os impede. Ou porque a estrada está cortada para obras de pavimentação. Ou porque sofremos de diabetes e não podemos abusar dos açucares. Ou porque sim e não falamos mais nisto. Há muita gente que não pode comer crustáceos, verdade? E porquê? Não faço ideia, mas o médico diz que não podemos porque nascemos assim e nós, resignados, ao aproximar-se o empregado de mesa com meio quilo de gambas que faz favor, vamos dizendo: “Nem pensar, leve isso daqui que me irrita a pele”.
Ora, por vezes, o simples facto de gostarmos de alguém pode provocar-nos uma alergia semelhante. E nós, sabendo-o, mandamos para trás quando estávamos mortinhos por ir em frente. Não vamos.. E muitas das vezes, sabendo deste nosso problema, escolhemos para nós aquilo que sabemos que, invariavelmente, iremos recusar. Daí existirem aquelas pessoas que insistem em afirmar que só se apaixonam pelas pessoas erradas. Mentira. Pensar dessa forma é que é errado, porque o certo é perceber que se nós escolhemos aquela pessoa foi porque já sabíamos que não íamos a lado nenhum e que – aqui entre nós – é até um alívio não dar em nada porque ia ser uma chatice e estava-se mesmo a ver que ia dar nisto. E deu. Do mesmo modo que no final de 10 anos de relacionamento, ou cinco, ou três, há o hábito generalizado de dizermos que aquela pessoa com quem nós nos casámos já não é a mesma pessoa, quando por mais que nos custe, é igualzinha. O que mudou – e o professor Júlio Machado Vaz que se cuide – foram as expectativas que nós criamos em relação a ela. Impressionados?
Pois bem, se me permitem, vou arregaçar as mangas. O que é díficil – dizem – é saber quando gostam de nós. E, quando afirmam isto, bebo logo dois dry martinis para a tosse. Saber quando gostam de nós? Mas com mil raios, isso é o mais fácil porque quando se gosta de alguém não há desculpas nem “ ai que amanhã não dá porque tenho muito trabalho”, nem “ ai que hoje era bom mas tenho outra coisa combinada” nem “ ai que não vi a tua chamada não atendida”.
Quando se gosta de alguém – mas a sério, que é disto que falamos – não há nada mais importante do que essa outra pessoa. E sendo assim, não há sms que não se receba porque possivelmente não vimos, porque se calhar estava a passar num sítio sem rede, porque a minha amiga não me deu o recado, porque não percebi que querias estar comigo, porque recebi as flores mas pensava não serem para mim, porque não estava em casa quando tocaste.
Quando se gosta de alguém temos sempre rede, nunca falha a bateria, nunca nada nos impede de nos vermos e nem de nos encontrarmos no meio de uma multidão de gente. Quando se gosta de alguém não respondemos a uma mensagem só no final do dia, não temos acidentes de carro, nem nunca os nossos pais se sentiram mal a ponto de nos impossibilitarem o nosso encontro. Quando se gosta de alguém, ouvimos sempre o telefone, a campaínha da porta, lemos sempre a mensagem que nos deixaram no vidro embaciado do carro desse Inverno rigoroso. Quando se gosta de alguém – e estou a escrever para os que gostam - vamos para o local do acidente com a carta amigável, vamos ter com ela ao corredor do hospital ver como estão os pais, chamamos os bombeiros para abrirem a porta, mas nada, nada nos impede de estar juntos, porque nada nem ninguém é mais importante, do que nós.
Ora, por vezes, o simples facto de gostarmos de alguém pode provocar-nos uma alergia semelhante. E nós, sabendo-o, mandamos para trás quando estávamos mortinhos por ir em frente. Não vamos.. E muitas das vezes, sabendo deste nosso problema, escolhemos para nós aquilo que sabemos que, invariavelmente, iremos recusar. Daí existirem aquelas pessoas que insistem em afirmar que só se apaixonam pelas pessoas erradas. Mentira. Pensar dessa forma é que é errado, porque o certo é perceber que se nós escolhemos aquela pessoa foi porque já sabíamos que não íamos a lado nenhum e que – aqui entre nós – é até um alívio não dar em nada porque ia ser uma chatice e estava-se mesmo a ver que ia dar nisto. E deu. Do mesmo modo que no final de 10 anos de relacionamento, ou cinco, ou três, há o hábito generalizado de dizermos que aquela pessoa com quem nós nos casámos já não é a mesma pessoa, quando por mais que nos custe, é igualzinha. O que mudou – e o professor Júlio Machado Vaz que se cuide – foram as expectativas que nós criamos em relação a ela. Impressionados?
Pois bem, se me permitem, vou arregaçar as mangas. O que é díficil – dizem – é saber quando gostam de nós. E, quando afirmam isto, bebo logo dois dry martinis para a tosse. Saber quando gostam de nós? Mas com mil raios, isso é o mais fácil porque quando se gosta de alguém não há desculpas nem “ ai que amanhã não dá porque tenho muito trabalho”, nem “ ai que hoje era bom mas tenho outra coisa combinada” nem “ ai que não vi a tua chamada não atendida”.
Quando se gosta de alguém – mas a sério, que é disto que falamos – não há nada mais importante do que essa outra pessoa. E sendo assim, não há sms que não se receba porque possivelmente não vimos, porque se calhar estava a passar num sítio sem rede, porque a minha amiga não me deu o recado, porque não percebi que querias estar comigo, porque recebi as flores mas pensava não serem para mim, porque não estava em casa quando tocaste.
Quando se gosta de alguém temos sempre rede, nunca falha a bateria, nunca nada nos impede de nos vermos e nem de nos encontrarmos no meio de uma multidão de gente. Quando se gosta de alguém não respondemos a uma mensagem só no final do dia, não temos acidentes de carro, nem nunca os nossos pais se sentiram mal a ponto de nos impossibilitarem o nosso encontro. Quando se gosta de alguém, ouvimos sempre o telefone, a campaínha da porta, lemos sempre a mensagem que nos deixaram no vidro embaciado do carro desse Inverno rigoroso. Quando se gosta de alguém – e estou a escrever para os que gostam - vamos para o local do acidente com a carta amigável, vamos ter com ela ao corredor do hospital ver como estão os pais, chamamos os bombeiros para abrirem a porta, mas nada, nada nos impede de estar juntos, porque nada nem ninguém é mais importante, do que nós.
Fernando Alvim
Espero bem que não
Espero bem que não
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